Adoecimento mental e responsabilidade psíquica: cuidar não é ocupar o lugar do outro

Falar sobre adoecimento mental exige cuidado, mas também exige clareza. Acolher o sofrimento não significa retirar da pessoa toda a sua responsabilidade sobre a própria vida. Adoecer mentalmente não é fraqueza, não é escolha e não é falta de vontade, mas também não significa ausência total de participação no tratamento e no cuidado possível de si.

Assim como o corpo pode adoecer, a mente também pode entrar em sofrimento quando é exposta a perdas, frustrações, traumas, conflitos familiares, uso de substâncias, estresse prolongado ou fatores biológicos. Na maioria das vezes, o adoecimento não surge de forma isolada, mas como resultado de um acúmulo. Reconhecer isso ajuda a reduzir culpa, mas não elimina a necessidade de enfrentamento.

Quando a mente adoece, o pensamento pode se tornar confuso, as emoções mais intensas e a percepção da realidade pode ficar prejudicada. Em alguns quadros, a crítica se enfraquece e a pessoa passa a ter dificuldade de avaliar o que está acontecendo consigo. Ainda assim, mesmo com limitações importantes, há sempre algum nível possível de responsabilidade psíquica — ainda que mínima — que precisa ser preservado.

Responsabilidade psíquica não significa dar conta de tudo, nem “se virar sozinho”. Significa reconhecer limites, aceitar ajuda e participar, dentro do que é possível, do próprio tratamento. Isso pode aparecer em gestos simples: comparecer aos atendimentos, seguir orientações básicas, comunicar desconfortos, respeitar a rotina, sustentar o cuidado mesmo quando ele não é agradável.

É comum que o adoecimento venha acompanhado de sentimentos como medo, raiva, tristeza profunda ou esgotamento. Algumas pessoas se sentem injustiçadas pela própria condição; outras desejam que alguém resolva tudo por elas. Esses movimentos fazem parte do sofrimento, mas, quando sustentados sem elaboração, podem manter a pessoa presa ao lugar de adoecido, dificultando avanços.

O tratamento psicológico não existe para retirar a responsabilidade do sujeito, mas para reorganizar a relação da pessoa consigo mesma, com o outro e com a própria realidade. A medicação pode ajudar a estabilizar o funcionamento cerebral. O acompanhamento psicológico oferece um espaço de escuta, mas também de confrontação cuidadosa, onde o sujeito é chamado, pouco a pouco, a ocupar novamente seu lugar na própria história.

A melhora, quando acontece, raramente é imediata. Ela se constrói em pequenos movimentos sustentados ao longo do tempo: tolerar frustrações, reconhecer limites, modificar respostas automáticas, aceitar que nem tudo será resolvido rapidamente. Esses avanços exigem implicação, mesmo em contextos de adoecimento crônico.

Ter uma condição mental crônica não anula a existência de desejo, de escolhas possíveis e de responsabilidade. O cuidado em saúde mental não se resume a reduzir sintomas, mas a favorecer mais autonomia, mais dignidade e menos sofrimento, dentro da realidade de cada pessoa.

Falar de adoecimento mental, portanto, é também falar de responsabilidade psíquica. Cuidar não é abandonar o próprio lugar, nem transferir integralmente para o outro aquilo que, em alguma medida, continua sendo do sujeito